A canção A Banda de Chico Buarque de Hollanda, interpretada por Nara Leão, participou como concorrente da segunda edição do Festival de Música Popular Brasileira, realizado pela TV Record, em 1966.
História de A Banda de Chico Buarque
Segundo Zuza Homem de Melo, em seu livro A Era dos Festivais: uma parábola,
As opiniões sobre o vencedor dividiam até mesmo os funcionários do Teatro Record, que chegaram a fazer um bolo. A imprensa estava dividida, a opinião pública estava dividida, os participantes estavam divididos.
[…]
Randal Juliano anunciou que, devido às dúvidas, algumas músicas seriam reapresentadas, aumentando a tensão do público que não mudava sua preferência por “A Banda” ou por “Disparada”. Era preciso dar tempo para que o corpo de jurados, que durante a apresentação estivera postado na primeira fila do balcão, pudesse decidir na sala do prédio ao lado, que se comunicava com o Teatro.
Na reunião, foi feita uma primeira classificação. Alguns jurados sentiam que “Disparada” era a melhor música mas votaram em “A Banda”. O que se percebeu é que havia uma absoluta divisão do júri. Os votos foram contados. “A Banda” tinha sete votos, “Disparada” tinha cinco. Seria essa a decisão final. Roberto Freire entregou o resultado a Paulinho Machado de Carvalho do lado de fora e ouviu:
– Roberto, houve um impasse terrível. O Chico se nega a receber o prêmio.
– Mas por quê?
– Ele se nega. Disse que se for votada “A Banda” ele devolve o prêmio em público.
Ambos entraram na sala dos jurados. O que teria acontecido?
Enquanto o júri estava decidindo, Chico Buarque, já desconfiado de que iria ganhar, ouviu alguém afirmar: “Você ganhou”. Parecia uma grande notícia, mas Chico foi para perto de Paulinho Carvalho e disse: – Olha aqui, não deixa eu ganhar de “Disparada”. Eu não posso levar esse prêmio sozinho.

– Como? O júri é que decide.
– O júri pode decidir o que quiser. Eu não quero levar esse prêmio sozinho. Se “A Banda” for a primeira, eu devolvo o prêmio em público.

Era uma decisão irrevogável. Paulinho viu que era sério, subiu correndo ao terceiro andar do predinho onde o júri estava reunido e, quando entrou na sala, disse: – Tenho uma novidade pra vocês. O Chico acaba de me comunicar que de jeito nenhum leva esse prêmio sozinho.
A surpresa gerou um tremendo alvoroço. Os jurados já tinham dado suas notas, havia uma decisão já entregue. Paulinho ponderou que a plateia estava dividida e as duas músicas estavam tão perto, que o melhor era mesmo o empate, pois qualquer um que perdesse seria um desastre para a empresa: metade ia achar maravilhoso e a outra metade ia achar péssimo.
O melhor seria arrumar o empate: o objetivo do festival era fazer com que as músicas crescessem e virassem sucesso. Finalmente, decidiu-se então pelo empate e pela divisão do prêmio entre os compositores das duas músicas.

Letra de a banda
Estava à toa na vida
O meu amor me chamou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
A minha gente sofrida
Despediu-se da dor
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
O homem sério que contava dinheiro parou
O faroleiro que contava vantagem parou
A namorada que contava as estrelas parou
Para ver, ouvir e dar passagem
A moça triste que vivia calada sorriu
A rosa triste que vivia fechada se abriu
E a meninada toda se assanhou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
O velho fraco se esqueceu do cansaço e pensou
Qu’inda era moço pra sair no terraço e dançou
A moça feia debruçou na janela
Pensando que a banda tocava pra ela
A marcha alegre se espalhou na avenida e insistiu
A lua cheia que vivia escondida surgiu
Minha cidade toda se enfeitou
Pra ver a banda passar
Cantando coisas de amor
Mas para meu desencanto
O que era doce acabou
Tudo tomou seu lugar
Depois que a banda passou
E cada qual no seu canto
Em cada canto uma dor
Depois da banda passar
Cantando coisas de amor
A corrida contra o tempo para a gravação de A Banda

Biblioteca Nacional
Carlos DRUMMOND DE ANDRADE SOBRE A BANDA
O jeito, no momento, é ver a banda passar, cantando coisas de amor. Pois de amor andamos todos precisados, em dose tal que nos alegre, nos reumanize, nos corrija, nos dê paciência e esperança, força, capacidade de entender, perdoar, ir para a frente. Amor que seja navio, casa, coisa cintilante, que nos vacine contra o feio, o errado, o triste, o mau, o absurdo e o mais que estamos vivendo ou presenciando.
A ordem, meus manos e desconhecidos meus, é abrir a janela, abrir não, escancará-la, é subir ao terraço como fez o velho que era fraco mas subiu assim mesmo, é correr à rua no rastro da meninada, e ver e ouvir a banda que passa. Viva a música, viva o sopro de amor que a música e banda vem trazendo, Chico Buarque de Hollanda à frente, e que restaura em nós hipotecados palácios em ruínas, jardins pisoteados, cisternas secas, compensando-nos da confiança perdida nos homens e suas promessas, da perda dos sonhos que o desamor puiu e fixou, e que são agora como o paletó roído de traça, a pele escarificada de onde fugiu a beleza, o pó no ar, na falta de ar.

E Drummond continua…
Que poema ou crônica dele mais tocou você?
Meu partido está tomado. Não da ARENA nem do MDB, sou desse partido congregacional e superior às classificações de emergência, que encontra na banda o remédio, a angra, o roteiro, a solução. Ele não obedece a cálculos da conveniência momentânea, não admite cassações nem acomodações para evitá-las, e principalmente não é um partido, mas o desejo, a vontade de compreender pelo amor, e de amar pela compreensão.
Se uma banda sozinha faz a cidade toda se enfeitar e provoca até o aparecimento da lua cheia no céu confuso e soturno, crivado de signos ameaçadores, é porque há uma beleza generosa e solidária na banda, há uma indicação clara para todos os que têm responsabilidade de mandar e os que são mandados, os que estão contando dinheiro e os que não o têm para contar e muito menos para gastar, os espertos e os zangados, os vingadores e os ressentidos, os ambiciosos e todos, mas todos os etcéteras que eu poderia alinhar aqui se dispusesse da página inteira. Coisas de amor são finezas que se oferecem a qualquer um que saiba cultivá-las, distribuí-las, começando por querer que elas floresçam. E não se limitam ao jardinzinho particular de afetos que cobre a área de nossa vida particular: abrange terreno infinito, nas relações humanas, no país como entidade social carente de amor, no universo-mundo onde a voz do Papa soa como uma trompa longínqua, chamando o velho fraco, a mocinha feia, o homem sério, o faroleiro… todos que viram a banda passar, e por uns minutos se sentiram melhores. E se o que era doce acabou, depois que a banda passou, que venha outra banda, Chico, e que nunca uma banda como essa deixe de musicalizar a alma da gente.
Carlos Drummond de Andrade, assinando como C.D.A, em Correio da Manhã, 14/10/1966
A participação das pessoas em relação à A Banda
Veja a participação das pessoas em relação à A Banda.
Vídeo com ilustração de A Banda
Vídeo produzido por Luíza Marcon com a sua ilustração da A Banda. É muito interessante ler os comentários das pessoas no canal de YouTube da Luiza. São comentários diversos, que apresentam uma leitura política por trás da letra da música
Essa musica, apesar do tom alegre, mais mostra um desencanto de Chico do que esperança. Dado o contexto em que foi escrita, acredito que a letra mostra uma contradição entre a arte e a realidade da época. Enquanto as pessoas cantavam musicas nos shows e festivais que abominavam a ditadura e clamavam por liberdade, a realidade mostrava q a democracia e liberdade já estavam derrotadas e uma vez que a euforia da “banda” passasse tudo toma seu lugar de novo na ditadura. – Pacoca –
Crítica ao regime militar , a banda no casa representa a liberdade , e a democracia muito bom Chico Buarque foi um gênio em fazer isso. – Felipe Fernandes –
Outras, relembram a sua infância, como sendo uma música que os pais cantavam para ninar as crianças,
Essa música é tão importante pra mim. Meu pai faleceu quando eu tinha 9 anos, hoje tenho 19 e lembro perfeitamente dele me fazendo dormir cantando essa linda canção! Sinto sua falta, pai. ❤ – Jhessy Bevilaqua
Lembrança de avós,
A música que minha avó cantava pra mim❤️
Ou para ser cantada na escola, como exercício;
Nos livros de português 7°e 8° série, encontra se o gênio Chico.✌️🙏👏👏 – Paulo Rossi –
Eu apresentei essa música na escola quando criança, nunca me esqueci , melhor composição que já ouvi , hoje canto para minha filha dormir , me sinto tão bem ouvindo ela ❤ -T ati Silva –
Eu te amooooo Felipão professor de produção de texto heheheheeh – Kadu –
Também, tem confissões de pessoas dos Estados Unidos, Itália, República Dominicana,
Cosa mas linda que o que Chico hace nao ten ! Aqui desde Rep Dominicana saude para o Príncipe do Brasil : CHICO BUARQUE DE HOLLANDA ! – Carmen Liz –
Love this melodious song which I have forgotten until I heard it on Stingray apps recently! I had to goggle it to find out the melody is actually A Banda that I listened 55 years ago as a twelves years old child in São Paulo. I used to speak Portuguese😊 and apologize for not writing in Portuguese. – Monica Wu –
E os agradecimentos
Chico Buarque , obrigado por ser brasileiro ! Osvaldo Trigueiro
Enfim, há um mundo de declarações, interpretações e representações emocionais e emocionantes em relatos por lá. Vale acessar.
E para quem não conheceu a A Banda, a grata surpresa
Muito tempo que essa música existe e eu vi no dia 2 de junho de 2019 amo vocês😘 – Mirela Fernanda Barbosa
Meu “caro Chico”. Muito obrigada! – Carmen Diaz Herrera
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