Letra da música Todo o Sentimento
Preciso não dormir
Até se consumar
O tempo
Da gente
Preciso conduzir
Um tempo de te amar
Te amando devagar
E urgentemente
Pretendo descobrir
No último momento
Um tempo que refaz o que desfez
Que recolhe todo o sentimento
E bota no corpo uma outra vez
Prometo te querer
Até o amor cair
Doente
Doente
Prefiro então partir
A tempo de poder
A gente se desvencilhar da gente
Depois de te perder
Te encontro, com certeza
Talvez num tempo da delicadeza
Onde não diremos nada
Nada aconteceu
Apenas seguirei, como encantado
Ao lado teu
Todo o Sentimento, de Chico Buarque e Cristóvão Bastos: um exercício de leitura verbo-musical
Estudo de análise interpretativa sobre a canção popular brasileira Todo o sentimento, dos autores Chico Buarque e Cristóvão Bastos, a partir das seguintes fontes primárias: gravação daquela canção no disco Francisco (BUARQUE, 1987), transcrição musical de Todo o sentimento publicada em Songbook Chico Buarque (CHEDIAK, 1999), transcrição melódica da interpretação de Chico Buarque registrada no disco Francisco e entrevista realizada com Cristóvão Bastos, co-autor de Todo o sentimento, transcrita nos anexos desta dissertação. Os textos verbal e musical, constituintes inalienáveis de uma canção, serão estudados à luz de referenciais teóricos de TATIT (2002b), ULHÔA (1999), PAZ (1972), GOLDSTEIN (1999) e BARTHES (1985). Objetiva-se reconhecer correspondências entre os discursos empreendidos pelos textos verbal e musical, cuja integração parece apresentar uma relação de reciprocidade.
Leia a dissertação A canção Todo o Sentimento, de Chico Buarque e Cristóvão Bastos: um exercício de leitura verbo-musical, de Márcio Ronei Cravo Soares.
Partitura
Gravação no LP e CD Francisco
Francisco é um álbum do músico brasileiro Chico Buarque, lançado em 1987. O álbum foi lançado em vinil com 4 capas diferentes, todas com o mesmo Layout mas 4 fotos diferentes.

Cristóvão Bastos faz o relato dos acontecimentos e sentimentos que envolveram a gravação
Entrevista concedida ao pesquisador Márcio Ronei para a sua dissertação de mestrado A canção Todo o Sentimento, de Chico Buarque e Cristóvão Bastos: um exercício de leitura verbo-musical.
| Márcio Ronei: Eu vou fazer umas poucas perguntas especificamente a respeito da canção Todo o Sentimento, que é meu objeto de estudo. A primeira pergunta é a seguinte: com relação a essa canção, a música foi composta antes da letra? Cristóvão Bastos: Foi. Foi antes da letra, com certeza. Márcio Ronei: E a idéia de assinar a co-autoria com Chico Buarque foi sua mesmo ou foi sugestão de alguém? Cristóvão Bastos: Na verdade, foi uma sugestão da Miúcha [cantora de Música Popular Brasileira e irmã de Chico Buarque]. Porque eu tinha acabado de compor e eu mostrei a canção para ela e ela ficou entusiasmada com a canção, chegou até a pensar em fazer uma letra. Mas o Chico estava gravando um disco chamado Francisco e aí ela falou com o Chico. Eu nem tinha pensado em mostrar para ele não, mas eu mostrei e ele gostou. Márcio Ronei: E ele resolveu letrar ali mesmo? Cristóvão Bastos: Não, ele levou a canção, que a gente gravou no estúdio. A gente estava gravando o disco, e lá mesmo eu gravei a canção no piano, e ele levou uma fita para casa e trouxe na semana seguinte. Márcio Ronei: No processo de composição da letra, Chico Buarque propôs alguma alteração na música, ou a canção foi gravada exatamente como você pensou a melodia? Cristóvão Bastos: A música ficou exatamente como foi feita. O Chico é muito bom em botar letra em cima de música. Márcio Ronei: Então, ele respeitou o seu encaminhamento melódico, não é? Cristóvão Bastos: Respeitou, com certeza. A gente teve uma conversa antes, por causa de um final que tinha, e a gente chegou em um consenso sobre esse final, mas isso antes da letra. Acho que eu tinha mostrado uma opção ou duas de final que eram preferíveis, uma coisa assim. E depois da conversa, ele levou a canção e fez a letra. |
[…] ele levou a canção, que a gente gravou no estúdio. A gente estava gravando o disco, e lá mesmo eu gravei a canção no piano, e ele levou uma fita para casa e trouxe na semana seguinte.
Márcio Ronei: Uma das fontes de estudo da minha dissertação é a transcrição feita pelo Almir Chediak, publicada no Songbook Chico Buarque. Com relação à harmonia transcrita pelo Chediak, eu queria saber se você teve acesso a ela, se você conheceu essa harmonia do Songbook Chico Buarque.
Cristóvão Bastos: Provavelmente sim, porque eu gravei no CD do Songbook do Chico e essa canção fazia parte, entre outras canções que o Chico só botou letra. Faziam parte algumas coisas do Francis Hime, essa canção minha [Todo o sentimento], algumas coisas do Edu Lobo. Eu não lembro se eu fiz revisão, mas eu devo ter feito revisão.
Márcio Ronei: Porque eu estou assumindo aquela harmonia, para efeito de análise, como integrante original da canção. Cristóvão Bastos: Você comparou aquela harmonia com a gravação original do Chico?
Márcio Ronei: Sim, eu tenho ouvido, mas às vezes escapa alguma coisa, não é? Ainda mais que não sou pianista. Às vezes eu ouço e acho que parece ser isso mesmo, mas eu queria confirmar com você se eu posso assumir aquela harmonia como original?
Cristóvão Bastos: Eu penso que sim. Já faz algum tempo e a gente faz muita coisa, mas provavelmente eu fiz a revisão dessa harmonia.
Márcio Ronei: Com relação à letra do Chico, você chegou a conversar com ele e sugerir alguma temática para a letra?
Cristóvão Bastos: Não. Ele achou que a canção era muito romântica. Eu sinto isso, tanto que ele colocou o nome de Todo o Sentimento. Ele sentiu dessa forma, e eu acho que a canção é assim mesmo.
Márcio Ronei: Independente de você ter dado a música e ele ter colocado letra, quando você compôs, primordialmente, o texto musical, você tinha em mente algum tema, algum assunto que a música parecia te sugerir?
Cristóvão Bastos: Não. Eu viajo muito na melodia e harmonia. Na verdade, a música é uma arte completa. Só que a gente agrega coisas, não é? Você usa a música para descrever uma cena, como ela é usada no cinema, e você usa para colocar letra e para transformar em canção e misturar, não é? E eu vivo essa coisa da música já como um produto mesmo. Então, eu não tinha pensado em um tema. Agora, a maior parte das canções que eu faço, elas são cantáveis, a não ser quando são pensadas como instrumentais. Tem canções minhas como, por exemplo, aquela da minissérie, que a Nana Caymmi gravou, que fez sucesso… Resposta ao Tempo. É uma canção absolutamente cantável, ninguém tem dificuldade de cantar, a não ser umas modulações interessantes, mas mesmo assim não tem problema. Eu tenho essa compreensão na hora de fazer, quando sinto que uma canção pode ter letra, mas eu não penso na letra não. Penso na nota, se aquele Ré bemol está bom, se o Dó está bom, eu trabalho assim.
[…] Ele achou que a canção era muito romântica. Eu sinto isso, tanto que ele colocou o nome de Todo o Sentimento. Ele sentiu dessa forma, e eu acho que a canção é assim mesmo.
Márcio Ronei: Uma curiosidade: a letra de Todo o Sentimento trata de uma relação amorosa, e diz, ao final, algo que tem me intrigado muito, fala de um “tempo da delicadeza”, onde talvez o casal consiga viver o amor eternamente, consiga eternizar o sentimento. Você chegou a conversar com Chico Buarque, posteriormente, sobre esse “tempo da delicadeza”, que tempo seria esse?
Cristóvão Bastos: Acho que é quando baixa toda poeira, não é? Quando as mágoas finalmente morreram com o tempo. Não tem agressão mais. Quando a poeira abaixa, aí, com o tempo, é que vem a delicadeza e acho, na verdade, que a delicadeza vem de volta, até.
Márcio Ronei: Ouvindo a gravação do disco Francisco, o andamento chama a atenção. Eu queria saber como foi a gravação, foi usado metrônomo? Piano e voz foram gravados simultaneamente?
Cristóvão Bastos: Simultaneamente. Aquilo é um grande rubato, e com liberdade para correr ou retardar. É uma canção derramada. Então, você pode correr ou segurar um pouco, não tem problema.
Márcio Ronei: Então, foi piano e voz simultaneamente?
Cristóvão Bastos: Sim, piano e voz definitivos. Foi direto.
Márcio Ronei: Para encerrar, eu gostaria de descrever, rapidamente, a dissertação. Ela está propondo uma análise interpretativa dessa canção, a partir de uma abordagem da letra, relacionando a letra com o texto musical. Então, nesse sentido, eu estou procurando, na melodia e na harmonia, correspondências com o que a letra está dizendo. É uma relação amorosa, existe uma possibilidade de separação, e, ao mesmo tempo, de uma eternização amorosa nesse “tempo da delicadeza”, e, a respeito disso, você teria algum comentário ou observação a respeito da sua parte, que foi melodia e harmonia, com relação a estes apontamentos temáticos que eu fiz?
Cristóvão Bastos: Eu me lembro de quando o Chico fez a letra, que ele trouxe para mim. Uma das coisas que a gente descobriu é que, na hora que ele colocou o “tempo da delicadeza”, ele colocou numa parte em que a música cresce, digamos assim, que ela vai a uma região mais aguda. E quando os cantores cantam essa região mais aguda, eles normalmente crescem até de volume, na dinâmica. E o “tempo da delicadeza” tem que ser dito de uma forma delicada, quer dizer, é uma coisa ao contrário do que normalmente se faria. E, na verdade, acho que isso é um grande achado dentro da música.
Márcio Ronei: É um trecho que tem um significado muito forte, não é?
Cristóvão Bastos: Exatamente.
Márcio Ronei: E eu estou me debatendo com esse tal “tempo da delicadeza”, para achá-lo no contexto da canção.
Cristóvão Bastos: Eu acho que a canção é toda delicada. Em alguns momentos, ela tem as crescidas dela, natural. Mas ela é toda delicada mesmo. O “tempo da delicadeza”, eu acho que, talvez na hora de escrever, o Chico estivesse escrevendo para uma pessoa que vive na delicadeza, e que estava esperando essa delicadeza voltar.
Márcio Ronei: Cristóvão, eu gostaria de agradecê-lo muito pela força. Eu vou usar essa entrevista, inserindo no texto final da dissertação e, certamente, até lá eu te mantenho informado e, inclusive, quero que esse material chegue até você.
Cristóvão Bastos: Uma coisa que você poderia colocar é que algumas canções brasileiras são feitas de uma maneira em que os autores estão separados fisicamente, por causa de trabalho. Então, é muito comum um autor fazer uma melodia e mandar para um parceiro que faz letra, às vezes até sem recado nenhum. Então, às vezes é difícil estabelecer uma sintonia. Eu tenho essa sintonia com o Aldir [Blanc], tinha com o Chico, com o Paulo César Pinheiro também tem, mas mesmo assim, às vezes não é tão simples dizer por que fizemos a canção, e quando você trabalho tudo junto, aí tem a idéia disso. Então, às vezes não é tão simples dizer por que a gente fez isso ou aquilo. Alguns autores pegaram poemas clássicos da língua portuguesa e musicaram. Então, não teve um papo com aquele poeta antes de musicá-lo. Quer dizer, a ligação está feita, mas essa ligação mais profunda que alguém pediu para você fazer é um pouco difícil de situar.
Márcio Ronei: Entendo. A obra fala por si, não é?
Cristóvão Bastos: Sim, a obra fala por si. Aquela poesia [letra de Todo o sentimento] que ele Chico Buarque] colocou é linda fora da música, e a música é linda fora da poesia. Eu faço show instrumental e sempre toco essa música, e ela tem um reconhecimento fantástico do público de música instrumental. Quando eu começo a tocar, tem gente que já bate palma. Outro dia, fiz um show instrumental com piano e violão, e comecei a tocar essa música e uma mulher gritou: “lindo!!!” (risos). Foi interessante. Quer dizer que ela tem a força dela, é independente.
E o “tempo da delicadeza” tem que ser dito de uma forma delicada, quer dizer, é uma coisa ao contrário do que normalmente se faria. E, na verdade, acho que isso é um grande achado dentro da música.
oUVIR A MÚSICA tODO O SENTIMENTO
Caso você queira apenas ouvir a música Todo o Sentimento, baixe o áudio a seguir ou clique para escutar no Spotify. Essa foi a gravação do show ao vivo do DVD Na Carreira.


Extreordinária composição. Chico Buarque de Holanda e Cristóvam Bastos provaram em, letra e música, o significado exato de “Todo Sentimento”. Literalmente.