Gota d´água: música, letra e peça para teatro

A peça de teatro Gota d´água, escrita por Chico Buarque e Paulo Pontes, foi inspirada e adaptada da tragédia grega Medéia, de Eurípides. A peça estreou em 1975 e se tornou um dos maiores sucessos do teatro brasileiro.

A história é ambientada em um conjunto habitacional do Rio de Janeiro e gira em torno de Joana, uma mulher traída que busca vingança contra seu ex-marido, Jasão.

Chico Buarque e Paulo Pontes apontam algumas preocupações quanto às intenções que foram surgindo (concebidas em estrutura e conteúdo), comparativamente e, repetidamente, em situações, ações e atitudes dos personagens diante de duas épocas históricas e locais geográficos. Segundo os autores de Gota d´água:

  • A primeira preocupação, que virou inspiração, é a questão do capitalismo selvagem que tomava conta do Brasil naquela época:

[…] O centro da crise política que as classes dominantes estão vivendo hoje, no Brasil, é este: como criar formas de convivência política entre interesses tão diversos e, em muitos casos, contraditórios, mantendo as classes subalternas em estado de relativa imobilidade. Enquanto a tão solicitada imaginação criadora dos políticos não resolve o dilema, a crise se aprofunda, com as cabeças mais lúcidas do sistema pedindo afrouxamento do cinto. O capitalismo, agora, precisa de um Estado mais aberto porque já foi capaz, na prática, de assimilar os focos de rebeldia. Ao mesmo tempo, se a abertura chegar ao pessoal lá de baixo… Se correr o bicho pega, se ficar o bicho come.

Gota d’água, a tragédia, é uma reflexão sobre esse movimento que se operou no interior da sociedade, encurralando as classes subalternas. É uma reflexão insuficiente, simplificadora, ainda perplexa, não tão substantiva quanto é necessário, pois o quadro é muito complexo e só agora emerge das sombras do processo social para se constituir no traço dominante do perfil da vida brasileira atual.

De tão significativo, o quadro está a exigir a atenção das melhores energias da cultura brasileira; necessita não de uma peça, mas de uma dramaturgia inteira. Procuramos, pelo menos, diante de todas as limitações, olhar a tragédia de frente, enfrentar a sua concretude, não escamotear a complexidade da situação com a adjetivação raivosa e vã.

  • A segunda intenção que deu um mote à Gota d´água é relativa a um problema cultural:

[…] o povo sumiu da cultura produzida no Brasil — dos jornais, dos filmes, das peças, da TV, da literatura, etc. Isolado, seccionado, sem ter onde nem como exprimir seus interesses, desaparecido da vida política, o povo brasileiro deixou de ser o centro da cultura brasileira. Ficou reduzido às estatísticas e às manchetes dos jornais de crime. Povo, só como exótico, pitoresco ou marginal. Chegou uma hora em que até a palavra povo saiu de circulação. Nossa produção cultural, claro, não ganhou com o sumiço.

A partir da década de 50 um contingente cada vez maior da intelectualidade foi percebendo que a classe média de um país como o nosso — colonizado, desviado do controle sobre seu próprio destino — vive dilacerada, sem identidade, não se reconhece no que produz, no que faz e no que diz. Ela só tem chance de sair da perplexidade quando se descobre ligada à vida concreta do povo, quando faz das aspirações do povo um projeto que dê sentido à sua vida. Isso porque o povo, mesmo expropriado de seus instrumentos de afirmação, ocupa o centro da realidade — tem aspirações, passado, tem história, tem experiência, concretude, tem sentido. É, por conseguinte, a única fonte de identidade nacional. Qualquer projeto nacional legítimo tem que sair dele.

  • A terceira e última grande preocupação dos autores Chico Buarque e Paulo Pontes está refletida na forma da peça de teatro.

[…] está refletida na forma da peça. No auge da crise expressiva que o teatro brasileiro tem atravessado, a palavra deixou de ser o centro do acontecimento dramático. O corpo do ator, a cenografia, adereços, luz, ganharam proeminência, e o diretor assumiu o primeiríssimo plano na hierarquia da criação teatral. As mais indagativas e generosas realizações desse período têm como característica principal a ascendência de estímulos sonoros e visuais sobre a palavra. As causas do fenômeno são conhecidas, mas gostaríamos de chamar a atenção para uma delas, apenas pressentida: ao lado de todas as pressões amesquinhadoras, que tornaram impossível a encenação do discurso dramático claro sobre a realidade brasileira, uma fobia pela razão ia tomando conta de nossa criação teatral.

Chico Buarque e Paulo Pontes Peça de teatro brasileiro Gota D´Água
Chico Buarque e Paulo Pontes | Foto: Mr. Zieg

Era improvável que se tratasse de uma crise da razão, num país como este, com tudo por ser feito, e estruturado de forma tão irracional que a lógica mais estreitamente cartesiana tem eficácia como instrumento de percepção. O que aconteceu, na verdade, é que as transformações foram se acumulando no interior da sociedade sem que a cultura, posta à margem, se desse conta. Até um ponto em que o processo social ficou muito mais complexo do que a cultura era capaz de entender e formular. E este passou a ser o centro da crise da cultura brasileira: criou-se um abismo entre a complexidade da vida brasileira e a capacidade de sua elite política e intelectual de pensá-la.

O desespero, o deboche, a supervalorização dos sentidos, etc. — que tomaram conta do nosso melhor teatro em anos recentes — a partir de determinado momento deixaram de ser substitutivos conscientes do realismo policiado e passaram a ser, no plano teatral, a expressão da incapacidade de nossa cultura de perceber e formular, em toda a sua complexidade, a sociedade brasileira atual.

Claro que a estreiteza dos limites impostos à criação cultural, no Brasil, é a grande responsável pela crise, mas nós nos iludimos se não reconhecemos que, a partir de determinado momento, houve incapacidade real de pensar nossa realidade.

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Cartaz de Gota D´água, Chico Buarque e Paulo Pontes 1975 / Bibi Ferreira

Agora o quadro vai se modificando. Principalmente a partir dos últimos dois anos. A economia, a sociologia, a ciência política, setores da produção cultural voltados para a reflexão, começam a se pronunciar.

Sob as intenções e preocupações levantadas na apresentação, você poderá baixar gratuitamente o livro Gota D´Água de Chico Buarque e Paulo Pontes e realizar a sua leitura com os contextos históricos aqui salientados em suas nuances de vida da época em que se vivia no Brasil.

BUARQUE, Chico; PONTES, Paulo. Gota d´água. 29. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1998.

Baixe grátis o livro Livro Gota D’Água Chico Buarque e Paulo Pontes

Letra da música Gota D´água

Já lhe dei meu corpo, minha alegria
Já estanquei meu sangue quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor
Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d’água
Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d’água
Já lhe dei meu corpo, minha alegria
Já estanquei meu sangue quando fervia
Olha a voz que me resta
Olha a veia que salta
Olha a gota que falta
Pro desfecho da festa
Por favor
Deixe em paz meu coração
Que ele é um pote até aqui de mágoa
E qualquer desatenção, faça não
Pode ser a gota d’água
Pode ser a gota d’água
Pode ser a gota d’água

Vídeo: Peça Gota D´Água de Chico Buarque

Bibi Ferreira, uma das grandes damas do teatro brasileiro, atuou como Joana, o papel principal de Gota D´água, trazendo à personagem uma profundidade emocional. Além da sua atuação magistral, Bibi Ferreira cantava e encenava na peça, contribuindo para o grande sucesso do espetáculo.

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Bibi Ferreira / Fotografia Luiza Filippo

A combinação de uma narrativa poderosa, a música de Chico Buarque e a interpretação de Bibi Ferreira fez de “Gota D’Água” uma referência no teatro brasileiro.

Assista ao vídeo! Nesse trecho, Bibi canta ‘Basta Um Dia’, de Chico Buarque, uma das músicas de maior sucesso do espetáculo.

Texto da Peça Gota dáÁgua

Acompanhe a declaração de Joana (Bibi Ferreira) para Jasão.

JOANA — Pois bem, você
vai escutar as contas que eu vou lhe fazer:
te conheci moleque, frouxo, perna bamba,
barba rala, calça larga, bolso sem fundo
Não sabia nada de mulher nem de samba
e tinha um puto dum medo de olhar pro mundo
As marcas do homem, uma a uma, Jasão,
tu tirou todas de mim. O primeiro prato,
o primeiro aplauso, a primeira inspiração,
a primeira gravata, o primeiro sapato
de duas cores, lembra? O primeiro cigarro,
a primeira bebedeira, o primeiro filho,
o primeiro violão, o primeiro sarro,
o primeiro refrão e o primeiro estribilho
Te dei cada sinal do teu temperamento
Te dei matéria-prima para o teu tutano
E mesmo essa ambição que, neste momento,
se volta contra mim, eu te dei, por engano
Fui eu, Jasão, você não se encontrou na rua
Você andava tonto quando eu te encontrei
Fabriquei energia que não era tua
pra iluminar uma estrada que eu te apontei
E foi assim, enfim, que eu vi nascer do nada
uma alma ansiosa, faminta, buliçosa,
uma alma de homem. Enquanto eu, enciumada
dessa explosão, ao mesmo tempo, eu, vaidosa,
orgulhosa de ti, Jasão, era feliz,
eu era feliz, Jasão, feliz e iludida,
porque o que eu não imaginava, quando fiz
dos meus dez anos a mais uma sobrevida
pra completar a vida que você não tinha,
é que estava desperdiçando o meu alento,
estava vestindo um boneco de farinha
Assim que bateu o primeiro pé-de-vento,
assim que despontou um segundo horizonte,
lá se foi meu homem-orgulho, minha obra
completa, lá se foi pro acervo de Creonte…
Certo, o que eu não tenho, Creonte tem de sobra
Prestígio, posição… Teu samba vai tocar
em tudo quanto é programa. Tenho certeza
que a gota d’água não vai parar de pingar
de boca em boca… Em troca pela gentileza
vais engolir a filha, aquela mosca morta,
como engoliu meus dez anos. Esse é o teu preço,
dez anos. Até que apareça uma outra porta
que te leve direto pro inferno. Conheço
a vida, rapaz. Só de ambição, sem amor,
tua alma vai ficar torta, desgrenhada,
aleijada, pestilenta… Aproveitador!
Aproveitador!…

Cifras música Gota D´água

Toque e cante a música Gota D´água de Chico Buarque

D7M/F#       Gm6           G#m7(b5)   G7(#11)
Já lhe dei meu corpo, minha alegria
F#m7 B7(b9) Em7 B7/D#
Já estanquei meu sangue quando fervia
Em/D A7/C# D/C
Olha a voz que me resta Olha a veia que salta
G7M/B F#7/A# A7 D7M
Olha a gota que falta Pro desfecho da festa Por favor
A#º(b13) Bm7 D/C B7/D# B7 Em7
Deixe em paz meu coração Que ele é um pote até aqui de mágoa
Gm6/Bb B/A E7/G# Gm6 F#7(b13) Bm7(9) F#7(b13)
E qualquer desatenção, faça não Pode ser a gota d’água
Bm7(9) A#º(b13) Bm7 D/C B7/D# B7 Em7
Deixe em paz meu coração Que ele é um pote até aqui de mágoa
Gm6/Bb B/A E7/G# Gm6 F#7(b13) Bm7(9) F#7(b13)
E qualquer desatenção, faça não Pode ser a gota d’água

D7M/F# Gm6 G#m7(b5) G7(#11)
Já lhe dei meu corpo, minha alegria
F#m7 B7(b9) Em7 B7/D#
Já estanquei meu sangue quando fervia
Em/D A7/C# D/C
Olha a voz que me resta Olha a veia que salta
G7M/B F#7/A# A7 D7M
Olha a gota que falta Pro desfecho da festa Por favor
A#º(b13) Bm7 D/C B7/D# B7 Em7
Deixe em paz meu coração Que ele é um pote até aqui de mágoa
Gm6/Bb B/A E7/G# Gm6 F#7(b13) Bm7(9) F#7(b13)
E qualquer desatenção, faça não Pode ser a gota d’água
Bm7(9) A#º(b13) Bm7 D/C B7/D# B7 Em7
Deixe em paz meu coração Que ele é um pote até aqui de mágoa
Gm6/Bb B/A E7/G# Gm6 F#7(b13) Bm7(9) F#7(b13)
E qualquer desatenção, faça não Pode ser a gota d’água
B7/D# Em7 C7M C#m7(b5) F#7(b13) Bm7(9)
Pode ser a gota d’á___gua Pode ser a gota d’água

Vídeo de Gota D´água: Bibi Ferreira

Assista ao vídeo da declaração de Joana (Bibi Ferreira) sobre Jasão

Ficha Técnica

A montagem original de Gota d’água, em dezembro de 1975, contou com o seguinte elenco e profissionais de diversas áreas.
JOANA — BIBI FERREIRA
CREONTE — OSWALDO LOUREIRO
EGEU — LUIZ LINHARES
JASÃO — ROBERTO BOMFIM
ALMA — BETE MENDES
CORINA — SONIA OITICICA
CACETÃO — CARLOS LEITE
NENÊ — ISOLDA CRESTA
ESTELA — NORMA SUELI
ZAÍRA — SELMA LOPES
MARIA — MARIA ALVES
BOCA PEQUENA — OBERTO RÔNEI
AMORIM — ISAAC BARDAVI
XULÉ — GERALDO ROSAS
GALEGO — ANGELITO MELO
Coreografia: Luciano Luciani
Cenários e figurinos: Walter Bacci
Direção musical: Dory Caymmi
Produção: Casa Grande
Direção geral: Gianni Ratto

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Chico Buarque 80 anos: Homenagem da TV Cultura

Em homenagem a Chico Buarque, a rádio Cultura Brasil apresenta a série “Chico de trás pra frente: uma viagem pela obra de Chico Buarque“, apresentada por Sidney Molina. São 13 episódios para você curtir, começando com as criações mais recentes, como o Prêmio Camões, e retrocedendo ao longo dos mais de 40 álbuns autorais até alcançar o início de sua carreira em 1966.

A série é repleta de canções, parcerias e interpretações de artistas de várias gerações. Além disso, inclui trechos de entrevistas que Chico Buarque concedeu à TV Cultura nos programas “Vox Populi” e “MPB Especial” na década de 1970, bem como depoimentos exclusivos de músicos, críticos musicais e fãs do artista.

E é por razão da história revisitada na década de 1970, momento em que Gota D´Água foi criada e encenada, que trouxemos para você esse podcast da TV Cultura com Chico Buarque!

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