Com letra de Chico Buarque e música de Sivuca, a valsa João e Maria é uma das canções que mais marcaram uma época da música popular brasileira. Multiplicando-se entre vozes de todas as idades, atreladas às histórias de contos de fadas e da saudosa infância de todos, a valsa perpetua a lúdica sensação de memória presente.
Quando eu fui fazer, a letra me remeteu obrigatoriamente pra um tema infantil. Ainda de acordo com Chico, a letra saiu “com cara de música infantil porque, simplesmente, na fitinha ele dizia; ‘Fiz essa música em 1947.’ Aí pensei: ‘Mas eu criança…’ e me levou pra aquilo.
Chico Buarque

Letra da música João e Maria
Agora eu era o herói
E o meu cavalo só falava inglês
A noiva do cowboy
Era você
Além das outras três
Eu enfrentava os batalhões
Os alemães e seus canhões
Guardava o meu bodoque
E ensaiava um rock
Para as matinês
Agora eu era o rei
Era o bedel e era também juiz
E pela minha lei
A gente era obrigada a ser feliz
E você era a princesa
Que eu fiz coroar
E era tão linda de se admirar
Que andava nua pelo meu país
Não, não fuja não
Finja que agora eu era o seu brinquedo
Eu era o seu pião
O seu bicho preferido
Sim, me dê a mão
A gente agora já não tinha medo
No tempo da maldade
Acho que a gente nem tinha nascido
Agora era fatal
Que o faz-de-conta terminasse assim
Pra lá deste quintal
Era uma noite que não tem mais fim
Pois você sumiu no mundo
Sem me avisar
E agora eu era um louco a perguntar
O que é que a vida vai fazer de mim
A história por trás da música João e Maria
Muitas músicas (aliás, letras também) de Chico Buarque fazem parte do repertório e do imaginário lúdico de gerações de brasileiros. Não só por estarem na mídia durante um longo período, mas por conseguirem traduzir os sentimentos das pessoas e instigarem a sua imaginação. João e Maria mesmo em músicas que remetem a outros temas, buscam no baú das palavras os indícios de um posicionamento do arista com vistas à crítica política da época em que vivemos sob repressão militar.
A música João e Maria não foge às especulações quanto às metáforas de seus versos. Mas o próprio Chico limpa a tábua dos balanços para sentar a sua inspiração sobre a letra, que foi escrita em uma composição que Sivuca (Severino Dias de Oliveira) havia criado em 1947 quando tinha 17 anos.
Passados quase 30 anos após a sua criação musical, Sivuca envia a música João e Maria para Chico Buarque em uma fita K7 e, em 1976, surge a letra para a canção. Chico diz que se remeteu à própria infância quando escutou a música pela primeira vez. A marca da existência temporal da obra em seu ano da criação, levou Chico à sua época de infância, resgatando a ingenuidade em seus versos.

Várias são as interpretações das pessoas que, muitas vezes, em frente à obra de Chico, esperam a metáfora que remete a outro ambiente, a outras cenas, a outro Brasil – o da ditadura. Por isso, ao investigarem suas letras, até a de João e Maria, sempre sobre um espaço para o que Chico quer dizer com isso?
Enfim, bases de discurso e ideologia não faltam para que se acredite nas metáforas, até onde elas (talvez) não são planejadas, como é o caso da música João e Maria. Mas que há espaço na poesia para diversas interpretações que levam ao fundamento das restrições democráticas, sim, há.
Eis alguns versos em que levam à uma interpretação dúbia:
(…) Eu enfrentava os batalhões / Os alemães e seus canhões (…) / E pela minha lei / A gente era obrigada a ser feliz (…) / No tempo da maldade / Acho que a gente nem tinha nascido / (…) Pra lá deste quintal / Era uma noite que não tem mais fim.
De fato, o que se passa na formação da letra não é atingido por uma só análise, sequer quando no ato de sua composição, pois as formações discursivas partem de um sujeito infantil que está em plena atividade de brincadeira de faz-de-conta e por um compositor que, já adulto, resgata imagens e sentimentos de sua época infantil. Por isso, a leitura torna-se mais uma suposição do que a posição de certeza.
Vídeo da música João e Maria
Partitura da Música João e Maria

O início da letra é intrigante. Composta pelo verbo “era” no pretérito imperfeito, “Agora eu ERA heroi” remete a um faz-de-conta, ou seja: Agora, faz de conta que eu era heroi e o meu cavalo só falava inglês.
Em brincadeiras de criança é comum esse início porque as histórias infantis muitas vezes começam com “Era uma vez…”. Dessa forma, podemos constatar que “Era um vez, agora eu era…” são posições de sujeito que vive a história fantástica ou da fantasia. Assim, nas histórias de fantasia pode-se dizer que o tempo é modificado para criar um passado que acontece uma linha contínua.
O jeito ingênuo da melodia, composta por Sivuca em 1947, época em que Chico Buarque vivia sua infância, deu-lhe, ao ouvi-la trinta anos depois, a ideia de fazer-lhe uma letra evocativa na qual são recordadas brincadeiras de criança: “Agora eu era o herói / e o meu cavalo só falava inglês / a noiva do cowboy / era você além das outras três…” Assim nasceu a valsinha João e Maria, nome também de um conto infantil, gravada por Nara Leão e Chico no elepê Meus amigos são um barato e popularizada pela telenovela Dancin’ Days. No auge do sucesso de João e Maria, que muita gente pensava ser apenas de Chico, Sivuca aproveitou uma série de shows que realizava no Rio para corrigir o equívoco: a letra era do Chico, mas a música era dele há muito tempo.
Wikipédia sobre a canção João e Maria
Nara Leão sobre a música João e Maria
Nara relata a sensação que teve ao escutar a música João e Maria pela primeira vez.
No encarte do LP, Nara escreveu: “Pedi uma música ao Chico. Ele me mandou uma de parceria com Sivuca sobre um tema infantil – João e Maria. Dias antes o Cacá (Cacá Diegues), que foi marido de Nara e pai de seus filhos Isabel e Francisco] tinha me chamado a atenção para a conversa de Francisco e Isabel com alguns amigos onde eles diziam: “eu era a princesa, eu era o cavalo…” Cacá observou que os tempos do verbo estavam no passado. Um faz de conta, mas ainda no passado. Quando vi a música de Chico, achei engraçado. Ele tinha percebido o universo infantil tão perfeitamente. Não falava pela criança, mas era a criança que falava. O Chico é fogo. Forma e conteúdo perfeitos. A gravação se passou muito tranquila. O Sivuca é uma graça. Fazia questão que a gente chamasse seu instrumento de sanfona e não de acordeom. Deu um show de musicalidade e gentileza.
Nara Leão sobre João e Maria
Documentário sobre a vida e a obra de Sivuca
Documentário • SP • Brasil • 2011 • 25 min • Livre
Parte da série: O Milagre de Santa Luzia – Cultura Popular – Temporada 1, 12 eps de (em média) 25min)
De Sergio Roizenblit

Não é arriscado dizer que Sivuca é uma das mais significativas figuras da história da música brasileira. Nascido em Itabaiana, em 1930, faleceu em João Pessoa, em 2006, meses depois de, ao lado de Dominguinhos, participar de gravação histórica para o filme O Milagre de Santa Luzia, em sua casa. É difícil não se emocionar assistindo aos amigos tocando músicas lindas e relembrando histórias memoráveis. Foi o último registro de um gênio, que revelou ao mundo a universalidade da música nordestina, e, durante toda a vida, tocou com absoluta maestria tanto a música erudita como a popular. O paraibano já morou em Nova Iorque e na Europa, onde sua música tem prestígio até hoje. Sua discografia é enorme, assim como a quantidade de parcerias, com os nomes mais importantes da música brasileira. Sivuca é uma pérola da cultura nacional e será eternamente lembrado por meio de sua arte.
Sinopse Canal Curta
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